Alexandra transforma os casamentos em obras de arte — do convite à decoração
No projeto A Pajarita, a artista portuguesa aplica as suas técnicas em pinturas coloridas e obras imersivas de acordo com o ambiente que os noivos idealizam.
texto de Filipa Marcos – 11/08/2026 às 18:24
Entre Portugal e Espanha, Alexandra Barbosa construiu um percurso ligado às artes plásticas, gravuras e produção artística. No regresso a casa, em 2010, aconteceu um momento inesperado que deu início ao projeto A Pajarita. Tudo começou numa aula de pintura, onde uma noiva procurava soluções para o estacionário de casamento. Nessa altura, a artista percebeu que podia ajudar e assim nasceram as criações de convites, ementas e instalações personalizadas de acordo com cada casal para o grande dia.
“A Pajarita, sinceramente, é trabalhar com o belo, magnífico, porque é trabalhar com algo bom das pessoas, é trabalhar com momentos de pura felicidade”, explica a artista à NIT.
Em cada projeto pintado à mão, Alexandra procura transmitir a essência, cor, texturas, linhas e ambiente escolhido para a cerimónia, desenvolvendo uma parceria que resulta em obras memoráveis e colecionáveis.
Hoje, com 45 anos, a vilacondense dedica-se a desenhar toda a identidade visual dos casamentos, desde o primeiro convite às estruturas que ocupam o espaço da festa.
“De repente, eu estava a pôr ao dispor do outro as minhas capacidades, toda a informação que tinha reunido, toda a minha aprendizagem, e isso foi muito interessante.”
Com este desafio artístico, o trabalho que estava centrado na própria autora e na sua visão, passou a ser sobre a história de outras pessoas.
De artista independente ao negócio próprio
A formação começou em Portugal, na Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha, onde concluiu a licenciatura em Artes Plásticas, em 2005. Seguiu para a Corunha, em Espanha, para fazer um Master em Obra Gráfica na Fundación CIEC — Centro Internacional de la Estampa Contemporânea. Dois anos depois, rumou a Valência para fazer um mestrado em Produção Artística, mantendo a gravura como uma das principais áreas de interesse.
A passagem para este novo universo não aconteceu de forma imediata. Alexandra reconhece que a área comercial não fazia parte da sua formação enquanto artista. Por isso, antes de avançar com o projeto, fez uma formação profissional em Técnicas de Comércio Internacional, de nível 4, no CESAE de Vila do Conde.
Só mais tarde apresentou o projeto à Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), que o aprovou, permitindo a entrada na incubadora da organização, na Póvoa de Varzim. E assim, em 2014 nasceu oficialmente A Pajarita.
Os primeiros projetos tiveram uma forte componente internacional. Alexandra começou por trabalhar sobretudo para noivos estrangeiros, incluindo casais que se deslocaram para Portugal para casar. Só mais tarde passou a trabalhar com maior frequência com noivos portugueses. Ainda hoje, os casais estrangeiros são os seus clientes habituais.
A ligação à arte, porém, nunca desapareceu. Pelo contrário, tornou-se parte da identidade do projeto. Alexandra prefere assumir A Pajarita quase como uma segunda identidade.
“Costumo dizer que sou duas coisas diferentes”, explica.
A artista Alexandra é, nas suas palavras, mais séria e monocromática, enquanto A Pajarita representa uma faceta mais leve, colorida e divertida. A diferença está também naquilo que alimenta cada uma: a primeira nasce das suas próprias emoções, enquanto a segunda trabalha com momentos felizes de outras pessoas.
Esta distinção ajuda a perceber a artista, que aplica a atenção ao detalhe, importância da expressão e vontade de contar histórias ao trabalho que desenvolve na construção da identidade de cada casamento.

O convite é apenas o princípio de um estacionário completo
A Pajarita distancia-se do serviço convencional de convites, uma vez que o estacionário é desenhado exclusivamente para cada casal. Não existem regras ou linhas pré-definidas que possam ser simplesmente escolhidas a partir de um catálogo.
“Cada casal vai ter as suas ilustrações, vai ter as suas imagens e não há maneira de reproduzir, isso está completamente fora da questão”, explica Alexandra.
O processo pode envolver papel fine art ou feito à mão e diferentes técnicas artísticas. Alexandra trabalha com aguarela, acrílico e tinta da China, mas os projetos podem ainda recorrer a impressão, folha de ouro, bordado ou tecelagem de papel, entre outras soluções.
Mesmo quando existe impressão, há sempre uma etapa manual por trás.
“As imagens têm de ser sempre, primeiro, feitas à mão, ou seja, têm de ser pintadas ou desenhadas e só depois é que são produzidas.”
E não se trata apenas do convite. A Pajarita cria praticamente toda a identidade gráfica do casamento, desde o save the date e o convite aos cartões de detalhes, mapas, mensagens de boas-vindas, missais, votos, ementas, marcadores de mesa, lugares, seating plans, sinalética, etiquetas e cartões de agradecimento.
A ideia é que todas as peças pertençam à mesma história. Por isso, a autora não trabalha apenas uma peça isolada quando o objetivo é construir uma identidade completa.
A história dos noivos transforma-se em pinturas detalhadas
Os casais contactam habitualmente A Pajarita por email ou através do formulário disponível no site. Nessa primeira fase, Alexandra procura perceber o que os noivos gostam, de acordo com ambiente que procuram para o casamento.
Depois há uma reunião. Mesmo quando o orçamento ainda não está definido, a conversa serve para perceber melhor o casal e, sobretudo, aquilo que pode estar escondido por trás das primeiras referências.
Se houver a possibilidade, a conversa acontece no atelier da Póvoa de Varzim, que ocupa um andar inteiro e reúne o espaço de atendimento e a área de produção. No caso dos casais estrangeiros, este momento acontece por videochamada.
Alexandra explica que não faz sentido apresentar o projeto como uma loja convencional, porque não existem produtos produzidos em série ou peças de catálogo. Assim, o espaço segue um ambiente intimista e acolhedor para receber os clientes que procuram desenvolver um projeto muito personalizado.
O atelier apresenta provas de projetos anteriores, pinta, desenha e imprime. Todo o trabalho de A Pajarita é realizado internamente, sem produção por terceiros.
A partir da reunião começa a definir a direção criativa, o cronograma e os timings do projeto. Só depois apresenta uma proposta baseada na informação recolhida. Se for necessário, há espaço para reformular ou alterar alguns elementos. Segundo Alexandra, as mudanças costumam estar sobretudo relacionadas com o texto e não tanto com a imagem.
A estética também não obedece a uma fórmula fixa. Apesar de os elementos florais poderem surgir em alguns projetos, a artista não identifica uma procura dominante por esse tipo de linguagem. O que encontra nos clientes é antes uma vontade crescente de qualidade e de surpresa.
O mais importante é que o resultado seja o reflexo dos noivos e do lugar onde o casamento vai acontecer. Uma referência pode surgir de um tom, de uma memória, de um espaço ou até de um detalhe arquitetónico, como um azulejo de uma igreja.
“O objetivo é realmente que se reflita o que são.” E há uma regra que resume a sua abordagem: “É importante não ser literal. Esse é o meu objetivo, é ser o menos literal possível.”

Da folha para obras decorativas e tridimensionais
A evolução mais recente do projeto leva esta linguagem para fora do papel. A artista Alexandra está a desenvolver uma vertente de design cénico, pensada para dar corpo às ilustrações e transformar desenhos em elementos tridimensionais.
“O meu objetivo é que as ilustrações ganhem um corpo e abandonem o espaço limitado de uma moldura”, explica à NIT.
A ideia passa por criar instalações, cenários e estruturas que possam integrar sessões fotográficas ou o próprio casamento, como uma experiência imersiva durante a cerimónia. São peças pensadas para fazer parte da decoração e, mais do que isso, para envolver quem está no espaço.
“Quero que as pessoas consigam viver dentro delas.”
Também existem obras de arte feitas por encomenda. Podem ser peças únicas ou trabalhos de maior dimensão, inspirados numa passagem de um texto, num lugar especial, num momento do noivado ou simplesmente numa ideia que tenha significado para o casal. Algumas são pensadas para integrar a própria festa e outras são criadas para permanecer em casa depois do casamento.
Além dos casamentos, existem workshops individuais e experiências para alguns casais estrangeiros que passam poucos dias em Portugal. Podem acontecer no atelier, em hotéis ou noutros espaços, dependendo das necessidades de cada grupo.
Quanto custa transformar um casamento numa peça única?
Cerca de 95% do trabalho de A Pajarita está relacionado com casamentos. Batizados e comunhões também fazem parte dos serviços, mas de forma pontual.
Não existe um preço único porque cada projeto é diferente. A quantidade, o tipo de papel, o número de elementos e, sobretudo, a quantidade de trabalho manual influenciam diretamente o orçamento.
Alexandra indica valores que podem variar entre mil e sete mil euros para determinados projetos, sendo habitual trabalhar com um mínimo de 100 unidades. Existem soluções mais simples a partir de 5€ por unidade, embora o valor final dependa daquilo que o pedido exige.
No caso das obras de arte personalizadas, o preço parte aproximadamente dos 100€ e aumenta consoante a dimensão e a complexidade da peça. A diferença de escala pode ser significativa. Alexandra recorda, por exemplo, uma pintura de um castelo com mais de um metro por cerca de 80 centímetros que demorou quase dois meses para ser concluída.
O principal público é constituído por casais que procuram uma experiência personalizada e que valorizam a exclusividade, o detalhe e a dimensão artística do estacionário.
Carregue na galeria para conhecer alguns dos projetos já desenvolvidos e propostas para vários gostos onde se pode inspirar.
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